A Semana Nacional da Pessoa com Deficiência Intelectual e Múltipla, realizada entre os dias 21 e 28 de agosto, amplia o debate sobre inclusão social, combate ao preconceito e ao capacitismo e garantia de direitos. Em Lauro Müller, a APAE aproveita o período para intensificar ações de conscientização e aproximar a comunidade do trabalho desenvolvido pela instituição.
O tema foi abordado no programa Cruz de Malta Notícias, pela diretora da APAE de Lauro Müller, Gisela Vicente, e pela psicóloga Natália Fábro. Segundo elas, embora agosto concentre atividades especiais, o trabalho de valorização, inclusão e promoção da autonomia das pessoas com deficiência acontece durante todo o ano.
Em Lauro Müller, as ações também estão relacionadas ao Agosto Laranja, instituído por lei municipal. Gisela explicou que a legislação passou por mudanças e que a abordagem deixou de estar centrada exclusivamente na prevenção de deficiências para trabalhar a promoção da saúde da pessoa com deficiência em todas as fases da vida.
Para Natália, essa mudança representa uma transformação importante na forma de compreender e abordar a deficiência. A profissional destaca que não é possível falar em prevenção de todas as deficiências e que, atualmente, o foco está na valorização, no protagonismo, na inclusão e na autonomia.
“Hoje se fala muito da valorização, do protagonismo, da inclusão da pessoa com deficiência estar inserida na sociedade”, explicou a psicóloga.
Cuidado também com quem cuida
Entre os projetos desenvolvidos pela APAE está o “Cuidando do Cuidador”, criado há cerca de cinco anos e voltado aos pais e responsáveis pelos atendidos. A proposta é oferecer momentos de lazer, integração e troca, sem transformar os encontros em espaços de palestras ou orientações.
Os encontros ocorrem uma vez por mês e permitem que pais e cuidadores tenham momentos de descontração, considerando que o cuidado de uma pessoa com deficiência pode exigir dedicação integral da família.
“O cuidador precisa estar bem para conseguir cuidar dos nossos atendidos”, ressaltou Natália durante a entrevista.
Outro exemplo de incentivo ao protagonismo é o trabalho de Autodefensoria, no qual alunos representam os demais atendidos, participam de eventos e apresentam reivindicações relacionadas às necessidades da comunidade escolar.
Autonomia é construída no dia a dia
Um dos principais desafios apontados pelas profissionais é garantir que as pessoas com deficiência tenham cada vez mais autonomia para a vida em sociedade. Para isso, a APAE desenvolve atividades práticas que estimulam habilidades básicas do cotidiano.
Entre os exemplos está uma atividade realizada em supermercado, na qual os alunos aprendem a fazer compras e desenvolver maior independência. Também são trabalhados aspectos como preparo de alimentos, cuidados com a saúde, higiene pessoal e organização.
A preocupação com a autonomia está diretamente relacionada a uma das principais angústias das famílias: o futuro das pessoas com deficiência quando os pais ou responsáveis não estiverem mais presentes para prestar os cuidados necessários.
Combate ao capacitismo
Durante a entrevista, Natália também explicou o conceito de capacitismo, definido como o preconceito ou discriminação contra pessoas com deficiência. Segundo ela, muitas manifestações capacitistas não são necessariamente intencionais e aparecem em expressões e atitudes que permanecem enraizadas culturalmente.
A psicóloga reforçou que o termo adequado é “pessoa com deficiência”, colocando a pessoa em primeiro lugar e a deficiência como uma de suas características. Ela também chamou atenção para a infantilização e para a tendência de presumir que uma pessoa não é capaz de realizar determinada atividade simplesmente por ter uma deficiência.
Para Gisela, apesar dos avanços, ainda existem barreiras atitudinais que precisam ser superadas. Segundo ela, inclusive algumas famílias apresentam resistência em reconhecer a necessidade de atendimento especializado.
Uma das estratégias adotadas pela APAE é justamente aproximar a comunidade da instituição, permitindo que as pessoas conheçam de perto os serviços oferecidos e compreendam a dimensão do trabalho desenvolvido.
Crescimento na procura pela estimulação
Gisela destacou ainda o crescimento da procura pelo programa de estimulação destinado a crianças de zero a cinco anos. Segundo ela, em 2017 a APAE atendia três crianças nesse programa. Atualmente, são cerca de 60, além de outras que ainda poderiam se beneficiar do acompanhamento.
Natália explicou que o atendimento psicológico também tem papel importante no acolhimento das famílias que recebem um diagnóstico de deficiência. Para muitos pais, esse momento envolve um processo de luto e adaptação à nova realidade.
A profissional ressalta, porém, que cada criança e cada família têm uma trajetória própria. Em alguns casos, crianças que chegam à instituição apresentando atrasos no desenvolvimento conseguem atingir os marcos esperados após o processo de estimulação e recebem alta do acompanhamento.
APAE atende cerca de 150 pessoas
Atualmente, a APAE de Lauro Müller conta com 38 funcionários e atende aproximadamente 150 pessoas nas áreas de saúde, educação e assistência.
Além do atendimento especializado, a instituição também busca ampliar a integração com a comunidade. Um dos exemplos é o trabalho realizado com escolas, que inclui palestras e atividades de convivência voltadas à conscientização sobre o capacitismo.
Outra iniciativa destacada pelas profissionais é o livro “O Mundo Colorido de Bia”, produzido a partir de uma história criada pela equipe da APAE e ilustrado pelos próprios alunos. A publicação aborda a história de uma menina com deficiência e foi distribuída em escolas e creches para ser utilizada em atividades com crianças da educação infantil.
A mensagem deixada pelas profissionais é que a inclusão não deve se limitar a uma semana ou a um mês de conscientização. Ela precisa fazer parte das relações sociais durante todo o ano, com respeito às diferenças, incentivo à autonomia e reconhecimento do protagonismo das pessoas com deficiência.
“O nosso grande objetivo é cada vez mais proporcionar essa inclusão”, afirmou Natália ao final da entrevista.

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