O fechamento de agências bancárias e a redução do atendimento presencial foram tema de uma audiência pública realizada na Assembleia Legislativa de Santa Catarina (Alesc). O encontro, promovido pela Comissão de Direitos do Consumidor, reuniu representantes dos trabalhadores, entidades da sociedade civil e órgãos ligados à defesa dos consumidores para discutir os impactos da medida em diferentes regiões do Estado.
Em entrevista ao programa Cruz de Malta Notícias, nesta quarta-feira (12), o secretário-geral da Federação dos Trabalhadores do Ramo Financeiro de Santa Catarina (Fetrafi-SC), Marco Aurélio Silvano, afirmou que a redução da presença física dos bancos tem provocado consequências que vão além da categoria bancária.
Segundo ele, o processo de fechamento de unidades vem se intensificando em Santa Catarina e afeta principalmente moradores que dependem do atendimento presencial. Entre os impactos citados estão a necessidade de deslocamento para outras cidades, prejuízos ao comércio e possíveis perdas de arrecadação para os municípios.
“Nós estamos tendo agora, neste momento, uma série de fechamento de unidades e isso causa uma série de problemas para a população”, destacou Silvano.
O dirigente sindical também chamou atenção para os efeitos sobre trabalhadores do setor financeiro. De acordo com ele, o fechamento de agências tem resultado em demissões e atingido centenas de famílias.
A Fetrafi-SC vinha defendendo a realização da audiência desde 2024. Conforme Silvano, o encontro contou com a participação de entidades de defesa do consumidor, Defensoria Pública e outras organizações da sociedade civil.
Um dos principais pontos discutidos na audiência foi a necessidade de garantir atendimento presencial nos serviços bancários. Silvano afirmou que a digitalização dos serviços, embora tenha ampliado o uso de aplicativos e canais eletrônicos, também deixou parte da população sem suporte adequado para resolver situações mais complexas.
Entre os exemplos estão operações de crédito, investimentos e outras demandas que, segundo ele, exigem orientação direta de um profissional.
O secretário-geral da Fetrafi-SC também questionou o que considera uma diferença no tratamento oferecido aos clientes de maior renda e à população em geral.
“Os clientes de alta renda têm atendimento especializado, atendimento presencial, quando necessário. Eles têm este privilégio, em detrimento do atendimento da grande população”, afirmou.
Outro alerta apresentado durante a entrevista envolve a exclusão digital. Silvano citou a existência de milhões de brasileiros sem acesso adequado à internet ou a dispositivos como smartphones e computadores, o que dificulta o acesso aos serviços financeiros exclusivamente digitais.
Crescimento de golpes também preocupa
A expansão do atendimento digital foi relacionada ainda ao aumento das fraudes bancárias. Para Silvano, a ausência de um canal presencial dificulta a busca por orientação quando o consumidor desconfia de uma tentativa de golpe.
Ele citou como exemplo um caso recente em Santa Catarina envolvendo um consumidor que teria sofrido um prejuízo superior a R$ 400 mil após cair em um golpe envolvendo uma falsa central eletrônica.
Na avaliação do dirigente, o atendimento presencial poderia oferecer uma camada adicional de segurança aos consumidores, especialmente para aqueles que têm dificuldade de utilizar ferramentas digitais.
Proposta prevê exigências para bancos contratados pelo poder público
Como resultado da audiência, uma das propostas é estabelecer exigências mínimas de permanência e atendimento para instituições financeiras contratadas pela administração pública direta e indireta.
De acordo com Marco Aurélio Silvano, um projeto de lei está sendo elaborado para criar essa obrigação e garantir atendimento presencial com estrutura e número suficiente de trabalhadores.
Também foi criada uma comissão parlamentar mista, que deverá aprofundar a discussão e aperfeiçoar o texto antes de sua tramitação na Assembleia Legislativa.
Além disso, uma moção foi aprovada durante a audiência com o objetivo de cobrar providências da representação de Santa Catarina no Congresso Nacional, da Câmara dos Deputados, do Senado Federal e da Presidência da República.
Bancos não enviaram representantes
Questionado sobre a participação das instituições financeiras na audiência, Silvano informou que os bancos foram convidados, mas não enviaram representantes.
Segundo ele, trabalhadores, entidades de defesa dos consumidores e outras organizações participaram do debate, além de um economista do Dieese, que apresentou dados relacionados ao setor.
“Infelizmente, os bancos não mandaram representação. Isso, para nós, empobrece o debate e mostra um certo descaso dos bancos em relação a essa situação”, declarou.
Fechamentos começam em municípios menores e avançam para grandes cidades
O secretário-geral da Fetrafi-SC explicou que o processo de redução da rede física começou de forma mais intensa nos pequenos e médios municípios, mas atualmente também alcança cidades maiores.
Uma das estratégias apontadas é a substituição das agências por correspondentes bancários e outros canais de atendimento, incluindo lotéricas.
Silvano também destacou que, nos municípios maiores, o fechamento de unidades começa a atingir bairros e regiões periféricas, concentrando o atendimento nas áreas centrais.
Para ele, essa mudança pode afetar diretamente a economia local, já que a presença de uma agência bancária contribui para a circulação de consumidores e recursos no comércio.
A expectativa da Fetrafi-SC é que as discussões realizadas na audiência pública resultem em medidas legislativas capazes de garantir a manutenção de um atendimento bancário presencial considerado adequado para a população catarinense.

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