A Epagri vem fortalecendo, na região, ações voltadas ao resgate e à conservação de sementes crioulas por meio do trabalho com integrantes do Movimento de Mulheres Camponesas (MMC). O tema foi abordado pela extensionista rural da Epagri em Orleans, Joana Bet, durante entrevista ao programa Cruz de Malta Notícias desta sexta-feira (18).
Segundo Joana, o grupo reúne mulheres de Orleans e também participantes de Lauro Müller e tem como uma de suas principais características a preservação de uma tradição familiar. “As mulheres tinham uma tradição familiar de guardar as sementes”, explicou.
Os encontros promovem a troca de sementes, mudas, receitas e experiências entre as participantes. De acordo com a extensionista, cerca de 15 mulheres participaram do último encontro, mas o grupo pode chegar ao dobro desse número ou até mais, considerando as integrantes que não conseguem participar de todas as atividades.
Experiências conhecidas no Paraná
Como parte desse trabalho, Joana e outros profissionais da Epagri participaram de uma viagem técnica aos municípios de Lapa e Mandirituba, no Paraná. O objetivo foi conhecer experiências relacionadas às sementes crioulas e à agroecologia.
Em Lapa, o grupo visitou um assentamento da reforma agrária com mais de 200 assentados, além de uma escola de agroecologia e uma Casa das Sementes. Um dos agricultores visitados mantém mais de 1,5 mil variedades de feijão crioulo, além de outras espécies.
A experiência também chamou atenção pela produção de alimentos orgânicos destinados à alimentação escolar. Conforme Joana, os agricultores trabalham por meio de uma cooperativa que fornece produtos para 140 escolas municipais de Curitiba. No local, também foi conhecida uma horta voltada aos estudos de agroecologia, estruturada no formato de agrofloresta.
Em Mandirituba, a comitiva conheceu a ABAI, entidade que recebe mais de 200 crianças por dia no contraturno escolar, além de atender alunos da APAE e jovens em processo de reinserção social.
Troca de sementes deve ganhar novos encontros
A partir das experiências observadas no Paraná, a Epagri pretende ampliar as ações de conservação e multiplicação das sementes crioulas na região. Joana contou que já está sendo planejado um grande evento para o próximo ano, no Centro de Treinamento da Epagri, em Araranguá, voltado à troca de sementes.
Também está prevista uma atividade regional envolvendo agricultoras de Lauro Müller, Orleans e Treviso. Joana já trouxe algumas variedades do Paraná, incluindo sementes de milho, feijão e flores, que foram distribuídas para agricultoras interessadas.
A ideia é que as participantes cultivem as variedades e posteriormente devolvam parte das sementes para que elas possam ser multiplicadas e distribuídas em novos encontros. “Elas ficaram com esse compromisso de produzirem as sementes pra estarem depois multiplicando pro pessoal nesses encontros”, explicou.
Entre as variedades conhecidas durante a viagem, Joana destacou o milho chamado de “Coroa de Cristo”, que possui grãos grandes e estrias vermelhas. Para ela, além das características produtivas e nutricionais, algumas dessas variedades também chamam atenção pela aparência.
Resgate também envolve memória das famílias
O trabalho de conservação das sementes possui ainda um componente cultural e afetivo. Joana explica que muitas variedades foram mantidas durante gerações por famílias de agricultores e, com o tempo, deixaram de ser encontradas com facilidade.
“É como se elas tivessem fazendo um resgate afetivo” das tradições familiares, afirmou. A extensionista citou como exemplo o mangarito, também conhecido por algumas famílias como “batata de margarida”, uma variedade mantida atualmente por agricultoras da região.
Nesse processo, a Epagri atua como apoiadora e articuladora, estimulando a formação dos grupos, a realização dos encontros e a troca de conhecimentos. Segundo Joana, a conservação das sementes também está relacionada à segurança nutricional e ao enfrentamento de desafios como as mudanças climáticas e a fome.
Quintais produtivos podem gerar alimento e renda
Durante a entrevista, Joana também falou sobre o projeto Quintais Produtivos, voltado principalmente às mulheres que já participam do Movimento de Mulheres Camponesas. A iniciativa é financiada por emendas parlamentares e busca estimular a produção nos quintais, tanto para o consumo das famílias quanto para a comercialização de excedentes.
A Epagri presta apoio técnico às agricultoras interessadas. “A gente presta esse apoio, né, como Epagri, mas é um projeto encampado pelo MMC”, explicou.
Segundo Joana, a produção excedente também pode representar uma oportunidade de geração de renda. Ela citou ainda o trabalho de apoio à feira livre de Orleans e à cooperativa de agricultores familiares, que busca ampliar a participação de produtores nas vendas institucionais e na comercialização direta.
Participação está aberta a novas integrantes
Os encontros não seguem uma agenda fixa, mas a proposta é que sejam realizados a cada dois ou três meses, mantendo a integração entre as participantes. “O que faz o movimento é o contato entre as mulheres, a troca”, destacou Joana.
Mulheres interessadas em participar podem procurar a Epagri de Orleans ou de Lauro Müller. Não é necessário possuir sementes para ingressar no grupo. A proposta é justamente ampliar a participação e fazer com que mais agricultoras se tornem multiplicadoras das variedades conservadas.
“O objetivo é difundir o máximo possível, assim, a gente quer que mais pessoas estejam no movimento e que mais pessoas sirvam como multiplicadores dessas sementes”, afirmou Joana.

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