O número de pessoas em situação de rua que passam por Lauro Müller tem aumentado, segundo avaliação das profissionais do Centro de Referência Especializado de Assistência Social (CREAS). Apesar de o município não registrar uma realidade semelhante à de grandes cidades, a equipe tem acompanhado casos com frequência, principalmente de pessoas que utilizam a cidade como ponto de passagem.
O tema foi discutido em entrevista com a assistente social Leila Demetro e a psicóloga Karen Serafim Jung, no contexto do Dia Nacional de Luta da População em Situação de Rua, celebrado em 19 de agosto. Segundo Leila, a equipe atende, em média, uma ou duas pessoas por semana, com maior ocorrência aos finais de semana.
“A grande parte das pessoas que a gente atende estão passando pelo município, na verdade, não que eles venham para residir aqui ou ficar por aqui. Lauro Müller é uma cidade de passagem”, explicou a assistente social. Ela citou ainda o período de colheita da maçã como um momento em que aumenta o fluxo de pessoas que seguem pela Serra em busca de oportunidades de trabalho.
Quando uma situação chega ao conhecimento do CREAS, a equipe realiza a abordagem social. A demanda pode ser comunicada por moradores, integrantes da rede de proteção, Conselho Tutelar ou até mesmo surgir a partir de atendimentos realizados em outros serviços públicos.
Leila explica que o primeiro contato é baseado no acolhimento e na escuta. “A gente vai até a pessoa em situação de rua, faz a abordagem social, faz o acolhimento, atendimento sempre bem humanizado”, afirmou. Segundo ela, o preconceito ainda é uma realidade enfrentada por essas pessoas e nem sempre estar em situação de rua representa uma escolha.
A assistência social pode oferecer diferentes formas de apoio, dependendo da situação. Entre os encaminhamentos estão passagens para outras cidades, alimentação, roupas, hospedagem e direcionamento para oportunidades de trabalho. Em casos específicos, a equipe também pode encaminhar a pessoa para Centros POP de municípios como Criciúma e Tubarão, onde são oferecidos serviços especializados, incluindo alimentação, atendimento e auxílio na regularização de documentos.
De acordo com as profissionais, não existe uma única causa para que uma pessoa passe a viver ou permanecer em situação de rua. Entre os motivos identificados estão desemprego, conflitos familiares, separações, rompimento de vínculos, alcoolismo e dependência química.
A psicóloga Karen Serafim Jung destaca que a conversa e a escuta são fundamentais para compreender a trajetória de cada pessoa.
“A gente acolhe, chama, conversa, tenta entender a história”, explicou. Segundo ela, o trabalho também busca apresentar alternativas e encaminhamentos, garantindo que a pessoa conheça seus direitos e tenha suporte para superar a situação de vulnerabilidade.
Karen também aponta que, durante os atendimentos, aparecem situações relacionadas a problemas familiares, dependência química, alcoolismo e dificuldades financeiras. A partir dessa avaliação, a equipe verifica se a pessoa deseja trabalhar, receber algum benefício ou buscar apoio para retomar vínculos familiares.
Município possui ferramentas para quem deseja recomeçar
Segundo Leila, quando existe interesse da pessoa em permanecer em Lauro Müller e reconstruir a vida no município, a assistência social dispõe de mecanismos para auxiliar nesse processo.
Entre as possibilidades estão encaminhamentos para o mercado de trabalho e o aluguel social disponibilizado pela prefeitura. A profissional relatou inclusive um caso em que uma mulher em situação de rua recebeu hospedagem, posteriormente teve acesso ao aluguel social e foi encaminhada para uma oportunidade de emprego. Apesar do acompanhamento, ela acabou deixando o município.
A equipe também mantém registros dos atendimentos e dos benefícios eventuais concedidos, permitindo acompanhar situações em que uma mesma pessoa retorna ao município em diferentes momentos.
Os atendimentos realizados em Lauro Müller envolvem, em grande parte, pessoas vindas de outras localidades. Leila cita casos de pessoas provenientes do Rio Grande do Sul, Criciúma e outras cidades da região.
Ela ressalta, porém, que nem toda pessoa encontrada em situação de vulnerabilidade necessariamente é moradora de rua. Em um dos casos acompanhados recentemente, por exemplo, um homem estava bem vestido e possuía telefone celular, mas havia ficado sem recursos para continuar a viagem.
CREAS reforça combate ao preconceito
Para Leila, é importante que a população compreenda que pessoas em situação de rua também são titulares de direitos.
“Aquela pessoa que está em situação de rua é um direito dela também. E como qualquer outra pessoa, ela tem direito à saúde, à assistência social, à alimentação”, afirmou. A orientação é que, diante de uma situação que gere dúvidas ou preocupação, os moradores procurem o CREAS em vez de agir diretamente ou tratar a pessoa com preconceito.
O atendimento do CREAS ocorre das 8h às 17h, sem intervalo ao meio-dia. Fora desse horário, existe o sistema de sobreaviso da assistência social, que funciona 24 horas para situações relacionadas à abordagem social.
O contato informado durante a entrevista é (48) 9886-3292. A orientação é que moradores que encontrem alguém em situação de rua e necessitem de orientação ou intervenção da equipe entrem em contato para que seja realizada a abordagem social.
A avaliação das profissionais é de que a situação em Lauro Müller não apresenta, neste momento, características semelhantes às enfrentadas por grandes centros urbanos. Ainda assim, o aumento do número de pessoas em passagem reforça a necessidade de manter uma rede de atendimento preparada, com acolhimento, orientação e garantia de direitos.

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