A crescente população de javalis em Santa Catarina voltou ao centro do debate após uma audiência pública realizada na Assembleia Legislativa de Santa Catarina (Alesc). O encontro reuniu representantes do setor agropecuário, caçadores e autoridades para discutir medidas que facilitem o controle da espécie invasora, considerada uma ameaça à produção rural, ao meio ambiente e à sanidade animal.
Em entrevista à Rádio Cruz de Malta FM, o presidente da Associação Brasileira de Caçadores “Aqui Tem Javali”, o agrônomo Rafael Salerno, afirmou que o problema se arrasta há mais de duas décadas e que o principal desafio continua sendo a burocracia enfrentada por quem realiza o controle dos animais.
“Os javalis são um problema já de muitos anos. Já tem mais de duas décadas que o Estado enfrenta esse problema. Os produtores rurais e os caçadores têm tentado fazer esse controle, mas encontram vários obstáculos, principalmente burocráticos”, destacou.
Segundo Salerno, atualmente a única forma eficaz de conter o avanço da espécie é por meio do abate controlado, atividade autorizada pela legislação, mas que ainda enfrenta custos elevados e diversas exigências administrativas.
“A única solução é, efetivamente, a caça. Apesar de regulamentada, ela ainda enfrenta vários obstáculos, principalmente burocracia e custos”, afirmou.
Entre as dificuldades apontadas está o alto custo para os controladores, que precisam investir em equipamentos, munições e cumprir exigências impostas pelos órgãos públicos.
De acordo com o presidente da associação, o custo para o controle de um único javali ultrapassa R$ 1 mil. Ele revelou ainda que dados apresentados durante a audiência pública mostram que mais de 200 mil animais já foram abatidos oficialmente em Santa Catarina, o que representa um investimento superior a R$ 200 milhões feito pelos próprios controladores.
“Esses voluntários já entregaram, com recursos próprios, mais de R$ 200 milhões à sociedade catarinense em defesa da agricultura e do meio ambiente”, ressaltou.
Além dos prejuízos causados às plantações e às propriedades rurais, Salerno alertou para os riscos sanitários provocados pela presença dos javalis.
Segundo ele, Santa Catarina é um dos principais exportadores de proteína animal do país e depende do status sanitário para manter mercados nacionais e internacionais.
“O javali compartilha diversas doenças que podem ser transmitidas ao gado. Um surto sanitário poderia bloquear o comércio da produção catarinense e gerar prejuízos por muitos anos”, explicou.
O impacto ambiental também preocupa. Conforme o agrônomo, os animais comprometem a regeneração de espécies nativas ao consumirem sementes, como o pinhão.
“Hoje os javalis estão consumindo as sementes da araucária, comprometendo toda a renovação dessa espécie”, afirmou.
Embora não exista um levantamento oficial sobre o número exato de javalis no Estado, Salerno estima que existam centenas de milhares de animais vivendo em liberdade.
Ele atribui esse crescimento à alta capacidade reprodutiva dos chamados “javaporcos”, resultado do cruzamento entre javalis e porcos domésticos.
“Uma única fêmea pode gerar até 20 filhotes viáveis por ano. É uma taxa de multiplicação muito grande”, disse.
O dirigente também destacou que Santa Catarina possui cerca de 20 mil caçadores registrados, número considerado insuficiente diante da dimensão do problema.
Durante a entrevista, Salerno comentou a aprovação, pela Alesc, de um projeto de lei que prevê um incentivo financeiro de R$ 100 por javali abatido.
Para ele, a medida representa um avanço, mas ainda há dúvidas sobre sua regulamentação.
“Toda lei que traz algum incentivo é bem-vista. Só nos preocupa como será o acesso a esse recurso, para que não sejam criadas ainda mais burocracias”, avaliou.

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